sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Ela gira para a direita ou para a esquerda?



Clicando na imagem, vemo-la a rodar... - mas em que sentido?

15 comentários:

Nando disse...

"Clicando na imagem, vemo-la a rodar... - mas em que sentido?"

Há aqui algo de incerto, equivocante. "Vemo-la a rodar...": a imagem ou a figura feminina da imagem? Por outro lado, "imagem" é um termo excessivamente polissémico, podendo uma imagem ser um conjunto de imagens. A ponto de a figura da imagem ser uma imagem dentro da imagem mais global onde está inscrita. Nessa altura, será, então, desnecessária a pergunta inaugural que fiz: torna-se indiferente a referência, pois será sempre a uma imagem; logo, a formulação estará sempre correcta.

Assim, é fácil transpormo-nos de uma ambiguidade a uma clareza tão indiscutível.

Fernando.

phronesis disse...

Clicando na imagem, logo se vê. A ambiguidade não é como a daquela frase: "A camponesa vendeu a vaca porque ELA não dava leite". (Ela quem?)
Neste endereço (que ficamos a dever-te, Nando)http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/O..GIM745478-7823-ILUSAO+BAILARINA.00.HTML, a explicação avançada (o cérebro não gosta destas ambiguidades antitéticas -- roda par a direita e roda para a esquerda -- e então decide-'se' por uma, algo ao acaso) não parece tão interessante como a que apela para a dominância momentânea do hemisfério processador: quando é o direito, gira da direita para a esquerda; quando é o esquerdo (por exemplo, se estivermos a produzir pensamentos mais analítcos), é para o lado contrário.
De qualquer modo, é fabulosa, não?

Paulo

phronesis disse...

Às vezes, como uma mesa, uma imagem é apenas e só...uma imagem!

JCP

phronesis disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isabel neves disse...

Apesar de não ter demorado muito tempo a ver a imagem, a minha paciência não dápara mais, pareceu-me que girava para ambos os lados. Ou será que estou errada ?

phronesis disse...

Isabel: de facto, tanto podes percepcioná-la para um lado como para outro. Curiosamente, parece mais difícil vê-la rodar sempre para o mesmo lado do que a alternância irregular. Num dado momento, três pessoas a observar o movimento percepcionaram três coisas diferentes: uma via o movimento da bailarina para a direita, outra para a esquerda e outra (eu) em loop (ora para um lado, ora para outro, sem completar uma volta completa). Mas isto merece uma investigação: quem é o seu autor? Que explicação dará um neurologista, por exemplo?
Paulo

Nando disse...

Ocorre-me agora que o problema não é exclusivamente de percepção. É, outrossim, de interpretação. Ver é, no essencial, interpretar, compreender. Enfim, que vemos, aqui, nesta bailarina?

Quando escrevi a primeira nota sobre a ambiguidade de "vemo-la rodar..." ("- mas em que sentido?"), pensei antes fazer a pergunta assim: 'em que sentido é que a vemos rodar?' pergunta o quê? Afinal, "em que sentido" pode ser "em que acepção?"; não só "em que direcção?" A escolha do termo tornou-se não acidental, mas muito pertinente. Privilegiaríamos, num dado momento, o significado deste movimento (percebido) em detrimento da percepção mesma do movimento, porque, precisamente, nos encontraríamos perante uma indecisão sobre a rotação da figura. O que convidaria a uma mediação; não somente a descodificação imediata. O problema passaria para a organização e arrumação da percepção tal como descodificada para um outro nível de percebimento. Como enxergamos, recebemos a imagem da bailarina rodopiando pode estender-se, assim, a um problema mais global do percebimento. O da leitura da experiência (da leitura da primeira leitura, do ver, adoptando esta separabilidade hipotética), após tornar-se consabido, comprovado que há percepções de visionamento diversas. Podemos compreender alguma coisa sem recorrermos logo às “ciências duras”?

De facto, não deixa de ser propositado aqui indagar o que é “rodar”, o que quer dizer ou em que se traduz. Ela roda mesmo, a bailarina? Dá voltas completas de 360º? Ou só meias.voltas? Os dados sensitivos habituais parecem baralhar-se quanto a este “rodar”, criando uma turbação. Deslocar o problema perceptivo para o domínio do perceber em geral – da apreensão, entendimento e concepção deste “rodar” -, para a semasiologia, não é despiciendo neste blog. Activá-lo, animá-lo, porém, é mais difícil.

Tratar-se-ia de questionar se transpomos também a noção que temos do rodar para a imagem animada, e verificar que tipo de coadunação há da semiologia com a percepção, com a experiência da visão neste caso (não dando como certo que a semântica esteja totalmente cativa dos sentidos, da percepção, que esta seja directora). Não sendo independentes estes domínios e flancos, também se poderia supor, ocasionalmente, que um prevalecesse sobre outro, que o princípio de realidade numa e noutra pessoa conhecessem orientações diferentes (primazias distintas quanto à relação com o ambiente); que os lastros desses níveis raramente são equidistantes e uniformes, configurando dominâncias e valimentos distintos.

Há uma hesitação, imprevista, entre o estabelecimento do primado, se projectamos na figura um ‘pré-conceito perceptivo’ do rodar , se introjectamos, a partir de uma afecção perceptiva, o que é aqui rodar. Como conformar esta dúvida – eu, que não sou cientista -, ou estruturá-la sequer na reflexividade da minha consciência do acontecimento? É possível dissolver a ilusão, ou resolvê-la unicamente a partir da nossa historicidade quer restrita quer mundana, de sorte que se sustente que vemos o que podemos – ou o que queremos ver – em acordo com uma certa orientação anamnésica da nossa existência, que disporia propensões mais especializadas ou mais bivalentes?

Talvez seja possível interpretar com algum acerto o que se percebe de viés, constituindo também a vida um compromisso entre a ilusão e a realidade, um meio-caminho entre a compreensão e a incompreensão; a compreensão, melhor, seria isso, uma perspectiva tendencial do percebimento, uma ‘especialização’ – nuns casos – , uma compreensão incompleta e inacabada, ‘deficiente’.

Se a ilusão estiver nos que vêem (e verão sempre) a bailarina girando somente para a direita? Se também nos que vêem para ambos os lados? Se nos que vêem para a esquerda? Não seria legítimo concluir que é possível viver na ilusão uma vida inteira? E isso não ser problemático, assentando na diversidade ordinária, desde que até um determinado grau de desvio aceitável, do ponto de vista da resistência à patologia - ao vício, à mania, à deturpação compulsiva. Isso conduz, igualmente, a um entendimento e percepção divergentes na espécie, a interpretações opostas. E podemos escolher, optar pelas nossas percepções, mudá-las?

As diferenças perceptivas, no caso da bailarina, não parecem ser – creio – problemáticas. Por isso, mais do que tentar vencer a experiência, ganhá-la, dominá-la, importaria incidir também no valor hermenêutico do aparente ‘paradoxo’. Um colega, que via sistematicamente – e só - a bailarina a rodar para a direita, achava ‘impossível’ que alguém a visse rodar para a esquerda, atribuindo isso a uma variação delusória; e enquanto só via daquele modo persistia. Até ao momento em que observou pessoas que viam a figura a rodar para a esquerda, ainda teimava. Quando o pus a ver também para a esquerda, disse: está bem feito, uma ilusão. Por outro lado, alguns que a viam rodar em ambos os sentidos, consideravam, camufladamente, que quem não via padecia de alguma deficiência perceptiva, pois era tão natural e óbvia a rotação alternada. No entanto, quando os questionei porque não controlavam a rotação, alguns responderam que isso dependia, claro, da imagem, da própria rotação programada aleatória. (Não encontrei até agora ninguém que a visse girar exclusivamente para a esquerda; quem vê para este lado é ambivalente) Isto carrearia, no domínio da opinião, o problema para uma questão semântica, a uma perturbação quase paradoxal quanto à pronunciação – o seu significado – perceptiva. [Em boa verdade, afastar desta ilusão o lado fisiológico e remetê-la para o aspecto cognitivo deixaria em aberto saber se é possível esta clivagem.]

O recurso à neurologia, respondendo com o uso tendencial mais acentuado de um ou outro hemisfério processador do cérebro (esquerdo/direito) infunde-nos sempre a intrometermo-nos num processo interpretativo, o qual não pode ser controlado unicamente pela ciência. Acabamos por articular e conectar essas descobertas (teóricas e até perceptivas – no caso da bailarina consiste em dominar o processo) do mesmo modo que fazemos com a interpretação do mundo à nossa volta. (Uma colega mandou-me ontem um sms garantindo-me – e desafiando-me para uma descoberta do processo idêntica à sua – que passou a controlar totalmente o processo: vê rodar a silhueta conforme quer, para a esquerda, para a direita, voltas de 180º apenas, inteiras.)

A pergunta é esta: quem domina mais, parecendo também dominar o menos, está em melhor posição, mais confortável, perante a sua existência e perante o mundo? Era sobre este valor que falava – e não creio que esteja, porque o valor perceptivo ‘mais apurado’ nem sempre é uma mais-valia.

Paulo: quanto à teoria do “mail”, seria mais estrambólica e lunática do que aquilo que precede até aqui. Mas poderíamos reter o seguinte: o facto de um olho apenas parecer memorizar o modo cúbico, tridimensional dos dois olhos – estéreo -, função que cabe ao cérebro processar e dirigir, indica-nos que a percepção não é uma coisa maioritariamente ou só sensitiva. Com efeito, quem cega de um olho, continua a ver exactamente como veria com os dois, sem perder a noção de profundidade. Mas isso só foi possível, primeiro, porque viu durante algum tempo com os dois, isto é, teve uma dada percepção. Depois, deixa de carecer da percepção formativa tridimensional porque o cérebro já a processou e, em caso de necessidade, transmite a informação a só um olho. Se se vê sempre com os dois, o processamento cerebral talvez ‘descanse’. Isto é, o cérebro processa em acerto com uma dada habituação ou programa, por vezes, ‘viciadamente’. Passa a orientar a percepção, a condicioná-la, a dirigi-la. O resultado disto seria, quanto à percepção, que, sendo necessária para a situação do indivíduo no espaço, se torna secundária, pois passa a haver um dirigismo mental. Um desfasamento crasso ou alienação ou ruptura mais radical das funções cerebrais (e estas como prerrogativas) com o espaço percepcional conduziria a uma esfera patológica. Quando digo “secundária”, é alguma coisa mais estilística também, para defender que podemos passar largos períodos a ver o que não vemos (do ponto de vista básico sensitivo), já que o cérebro passa a comandar; claro que novos ‘inputs’ perceptivos reconduzem a novos níveis de processamento, mais elevados, porventura. Por este caminho, o campo percepcional estaria quase sempre perturbado, alterando-se a perspectiva, caso a caso, o que até estimularia, quanto à arte, o processo criativo, a que corresponderia também uma deformação interessante, encorpando o sistema de comunicação: nuns casos, sub-codficação, noutros, sobrecodificação.

Por este alongamento, o que vemos não é o mundo tal como é, mas construímos uma imagem representativa da realidade. E, devido às suas limitações, os nossos sentidos podem ser facilmente iludidos. A imagem televisiva que se desenha no ecrã não é uma representação da realidade como tal, mas antes uma recriação, como dizem Vahé Zartarian e Emile Noël (“Cibermundos”): levando em consideração as limitações da nossa visão, dá-nos a ilusão de representar a realidade.

De facto, a visão corresponde quase a dois sentidos, seja a diferenciação da cor (tricromática) da intensidade da luz ou luminosidade que detecta (as ondas electromagnéticas no espectro visível). Para lá de detectar as imagens, interpreta-as, ou seja, vê-as. [No caso da bailarina, o movimento intermeia-se.] Mais do que uma questão estética, a visão pode guindar-se à lógica. Encontrei na Wikipedia: “visão é uma questão de derivar uma interpretação provável a partir de dados incompletos.” (Hermann von Helmholtz) A nossa percepção do mundo é em grande parte auto-produzida, por isso.

“O que vemos é sempre, em certa medida, uma ilusão. A nossa imagem mental do mundo só vagamente tem por base a realidade. Porque a visão é um processo em que a informação que vem dos nossos olhos converge com a que vem das nossas memórias. Os nomes, as cores, as formas usuais e a outra informação sobre as coisas que nós vemos surgem instantaneamente nos nossos circuitos neuronais e influenciam a representação da cena.”

“E é essa simplificação, que nos permite uma apreensão mais rápida (ainda que imperfeita) da «realidade exterior», que dá origem às ilusões de óptica.”

(Peço desculpa pela lonjura do texto.)

phronesis disse...

Nando: a percepção é interpretação (é assim que é vulgarmente definida: organizaçção e interpretação da informação sensorial).

Uma pergunta que fazes (a bailarina dá voltas completas ou meias voltas?) é muito pertinente. Se soubéssemos mais sobre a construção da imagem, estaríamos em melhor situação? Faz-me confusão que sejam necessárias 34 imagens para produzir este(s) movimentos(s)!

Assim de repente, não sei o que é semasiologia; de qualquer modo, este blog não é sobre esta imagem, mas sobre paradoxos semânticos, embora acolha estímulos afins, como imagens destas.

"Viver na ilusão uma vida inteira", na tua expressão; nós vemos o mundo como podemos vê-lo -- ou, como dizia Paul Éluard (glosando Kant?), como nós somos, não como ele é. (O que mais de uma vez também sugeres)

Acredito que a tua colega consiga controlar o sentido do movimento que vê; já suspeitava que isso era possível (e vou tentar conseguir o mesmo).

Quanto à extensão, estás desculpado; mas, para ser brutalmente franco, é um nadinha deselegante não seres um pouco mais sucinto.

Paulo

Anónimo disse...

Para que lado gira a consciência? Pode algo girar fora da consciência? E o que gira na consciência para que lado gira? Pode existir um lado esquerdo e um lado direito da consciência ou o 'lado', o 'esquerdo' e o 'direito' são necessariamente elementos internos da própria consciência?
Pode algo existir fora da consciência? E a 'bailarina' que gira pode girar fora da consciência? E pode girar na consciência? De que modo é que podemos ter consciência do movimento próprio dos elementos próprios da consciência?
Em suma,...
podemos ter consciência da 'consciência de' enquanto 'consciência de si'?
Das janelas da casa da consciência vê-se a consciência à janela a olhar para si!...

phronesis disse...

Caro anónimo,
são perguntas evocativas da atmosfera do blog; a algumas delas (para que lado gira a consciência?;ou para que lado gira o que gira na consciência...) não sei responder ou em que sentido poderiam receber uma resposta; outras, contudo, têm sido abordadas na Filosofia (embora não directamente relacionadas com a linguagem ou paradoxos semânticos). Por exemplo: "Pode existir algo fora da consciência?" - aqui estamos na dimensão epistemológica. (Já agora: a tua posição é, como a pergunta parece sugerir, radicalmente idealista (ou mesmo solipsista?)

Essas perguntas continuam aqui, a interpelar-nos...

(Desculpa a demora da reacção)

Paulo Lopes

Carlos Marques e Helena Serrão disse...

roda no sentido contrário aos ponteiros do relógio, não?

Aristóteles disse...

pff... mania dos intelectuais...
olhem para a sombra do pe em baixo da bailarina e imaginem na a andar ao contrario q ela logo vos faz a vontade.
Fora isso, tenho vos a dizer que sao todos um bando de palermas a inventar teorias de consciencias quando na realidade é só uma imagem que dependendo da forma como se observa gira em ambos os sentidos...
Espero sinceramente que se resolvam todos no meio dessas teorias idiotas e filosoficas, e entretanto, deixem-se de palavreado caro e balelas, e arranjem um trabalho!

Phronesis disse...

Obrigado pelo insight (será esta uma das tais palavras caras que denuncia o intelectual incorrigível?): realmente, toda a gente compreende imediatamente que "na realidade é só uma imagem que dependendo da forma como se observa gira em ambos os sentidos..." é A Explicação - robusta, simples e, além disso, elegantemente formulada.
Retribuindo a preocupação social da última linha: todos os que aqui deixaram comentários trabalham, tanto quanto sei; mas também espero que o autor do comentário tenha deixado de ser peripatético* e tenha mesmo um trabalho ou um emprego.
*ups, mais outra das tais palavras! Mas esta, ao menos, esá mesmo ligada a Aristóteles!

Paulo Lopes

Luna y Lua disse...

Não sei se esta imagem nos mostra o lado dominante do cerebro, não obstante, é estranhamente fascinante.
A situação de 3 pessoas verem coisam distintas também me ocorreu, caso contrário, pensaria que estava predefinida.
Eu vejo-a sempre a girar para o lado esquerdo. Só consegui que alterasse uma vez,após estar a dançar

Phronesis disse...

Luna y Lua,
também não sei se esta imagem mostra o lado dominante do cérebro (ou sequer se sugere uma teoria correspondente). Em termos práticos, sei que é possível ver (pelo menos) três coisas: ela rodar para ambos os lados e apenas meia volta, em loop (ora para a esquerda, ora para a direita). Um correspondente irascível sugeriu que olhássemos para a sombra do pé; eu prefiro concentrar-me na perna flectida. Penso que é até mais fácil do que ver estereogramas (eis um site, entre muitos, com exemplos de estereogramas: http://matematica.no.sapo.pt/estereogramas.htm).
No final da página há 2 links para outras imagens curiosas (ilusões óticas), mas não são .gif.
Obrigado pelo comentário. Qualquer observação apropopositada é bem vinda.

Paulo Lopes