quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Paradoxilia: Dia Mundial da Filosofia

Paradoxilia: Dia Mundial da Filosofia

3 comentários:

phronesis disse...

Eu não estou a escrever isto.

João

Anónimo disse...

1) É claro, João, que tu não estás a escrever isso, mas sim uma outra pessoa com o mesmo nome. Tal como não é problemático que Luís de Camões não tenha sido o autor de “Os Lusíadas”, mas um outro homem com o mesmo nome. Uma certeza, porém: quem escreveu “Os Lusíadas” foi Luís de Camões”.

Devo dizer-te que creio plenamente que tu escreveste “não estou a escrever isto”, mas dirijo-me àquele outro tu.

2) A perplexidade da autoria transcorre, provavelmente, da circunstância de existir uma claudicação entre phronesis e João, ou uma basculação do ethos ao logos. De resto, quem disse foi phronesis, concedendo-se, por exemplo, que “Eu não estou a escrever isto.” seja uma citação de João.

3) Uma vez que "estar a escrever" corresponde à predicação verbal do inacabamento, da imperfeição - "infectum" -, a acção em decurso, isso não colide com nada de relevantemente controverso; não implica “não ter estado a escrever”, mas, antes, acentua, a integração numa temporalidade diferenciada, não conclusiva.

4) “Isto” pode ser a coisa ou coisas que estão próximas de quem fala; logo, pode referir-se a alguma coisa exterior ao texto “não estou a escrever isto”, podendo querer dizer que não estamos a escrever, enquanto declaramos “não estou a escrever isto”, alguma outra coisa que devíamos, e que temos, por exemplo, junto de nós, em cima da secretária – uma tarefa da qual abdicámos, por alguma razão (“Não estou a escrever isto que devia”. É o mesmo que pensar alto que não se escreve sobre o que era mais premente, por exemplo). A compreensão dessa alternativa – mera hipótese – depende do outro colocutor. Não deixa de ser ambíguo, contudo. Mas não é, forçosamente, paradoxal, posto que não ressalta uma contradição flagrante (não há um juízo argentino, nem implícito, que contenda, em oposição).

5) “Não estou a escrever isto” não é o mesmo que “Não estou a escrever ‘Não estou a escrever’”. Do mesmo modo, a primeira é diferente de “Não estou a escrever ‘isto’”.

6) Importaria dar conta da disparidade que os tempos verbais veiculam à compreensão: escrevo ou estou escrevendo não pertencem ao Perfeito, como, por exemplo, escrevi, escrevera, etc. (incluídos no valor semântico da anterioridade, abrangendo similarmente o futuro perfeito. O tempo acha-se consumido). O valor lógico deveria conhecer algumas subtilezas diferenciadoras. “Eu escrevi” adquire uma qualidade resoluta, absoluta, terminante em relação com a acção. “Eu estou a escrever”, não. Trata-se de uma acção inconcludente, ainda em aberto, e “afectada”, por isso, por elementos do exterior, que podem escapar à própria acção. Da mesma maneira, “Não escrevi” corresponde ao tempo que mostra uma acção perfeita, acabada, concluída, embora, curiosamente, remeta para uma coisa que não se fez (do ponto de vista gramático-semântico, o que conta é a acção perfazer-se na declaração, ou na enunciação). “Não estou a escrever”, não. Está ainda suspensa da temporalidade, da sua consumação (segue-se o mesmo raciocino parentético de trás, indicando que a concretude do que se avoca ser, a maior parte das vezes, irrelevante, como defenderemos adiante).

7) Uma declaração do tipo “eu estou a fazer algo” revela que há uma proximidade temporal entre a declaração e a acção nela representada, estando no mesmo ciclo. Por exemplo, “Eu estou a pendurar-me na porta da sala”, escrito agora, realça aquela forma, pois, se assim não fosse, constituiria um problema, porque, enquanto estou ocupado a escrever não posso estar a pendurar-me. A assunção deste desfasamento não parece ser polémico, garantindo a evitação de um espectro paradoxal. Não há nenhuma razão para não conceder, identicamente, tal desalinhamento a “eu estou a escrever isto”. Uma objecção poderia ser levantada: a acção declarada corresponde, condiz, exactamente, com a acção que está a ser posta em prática – a escrita. Mas há que considerar que, conquanto o desfasamento possa ser mínimo – o pretérito assegura um desfasamento certo -, exista. Outra objecção: a declaração harmoniza-se com uma possibilidade (“estou a comer” como mera capacidade, plausível, verosímil, realizável). De qualquer modo, essa possibilidade obedece às mesmas regras da efectivação; aliás, é indiferente a realização; importa mais o respeito enunciativo acordado com a possibilidade somente, enformando o predicado gramatical – ao qual não pode ser indiferente o tempo e o modo verbais - a orientação das diferenciações. Não é, portanto, materialmente relevante a execução efectiva, sempre, excepto como se aventa à frente.

8) “Não estou a escrever isto”. Durante a declaração negativa da acção imperfeita - o seu acontecimento, ou não? -, não estás a escrever…. “Isto” é objecto directo da acção (gramaticalmente, o Complemento Directo). Mesmo na negação, “isto” é sempre Complemento Directo, mas já não um objecto concreto, nem potencial – representado, plasmado semanticamente no “isto” – em virtude do qual se tenha em vista alguma acção. Haveria que estabelecer, por vezes, alguma distinção entre a possibilidade contida num juízo e uma efectivação prática (restaria avaliar se a negação é a possibilidade tomada ao contrário, do avesso, se pode haver uma possibilidade negativa). Se ela, aparentemente, não existe, todavia, quando apomos diferentes tempos verbais, isso regista-se, já que “eu farei” começa sempre por uma possibilidade (mesmo que seja uma reiteração), enquanto que “eu fiz” não, visto ser mais uma evocação ou, ocasionalmente, hipótese discursiva. Isto é, a bem ver, são todas possibilidades que apresentam subtilidades e valias um tanto distintas.

Não renego o que escrevi em 1), embora chegado aqui já não subscreva com aquela prontidão folgazã do arranque. Vejamos:

9) Onde está “Não estou a escrever isto.”, também é admissível ler-se “Eu não estou a ler isto.”, porque não se lê o que não se escreve. Como vimos, “isto” é o objecto directo da acção, sobre o que incide a acção proposta. “Isto” é, portanto, diferente de “estar a ler”, visto que o predicado é distinto do complemento directo, sendo ali o caso de ler (estar a ler) ser uma forma verbal transitiva. Se assim não fosse, gerar-se-ia um círculo hermenêutico bizarro, numa relação entre as partes e o todo fechada, viciada, uma vez que um círculo correcto imporia sempre a relação de uma oração com outras, ou seja, pelo menos uma oração teria de relacionar-se com alguma coisa que lhes fosse exterior, o que conferiria a existência de duas, no mínimo. Ser capaz de ler não define imediatamente a literacia. Pelo que concluo que o declarante induza ou simule uma ileteracia, porque não pretende ter sido motivada numa descodificação (passo essencial da leitura é comerciar com um código) integral. Nem toda a ambiguidade é paradoxal.

9) Isto tudo que precede não é muito conceptual, é certo. Um anti-somítico contrapõe a avareza de palavras de João (?). Sem uma gravidade e seriedade completas.

Fernando.

Phronesis disse...

A frase "Eu não estou a escrever isto" era falsa quando a li (e ela foi escrita)...
Paulo